domingo, 3 de fevereiro de 2013

Mulher de honra – Um livro escrito com o coração, para o coração



O retrato de uma época deliciosamente construído por Raquel Lisboa. Anterior à cultura pop que domina a escrita popular, porém com elementos lingüísticos requintados e ironias eloqüentes, Mulher de honra é uma história que flui como nenhum outro livro de estreia eu já tenha lido. É simples, porém envolvente; contido, e ao mesmo tempo ousado; denso, porém fluido. E o melhor, é real. Um romance de estreia com um toque de clássico, e com um gosto bem familiar. 

                                por Leo Siva - leo_silva180@hotmail.com 



Descrever o que sinto agora que terminei de ler o maravilhoso romance de estreia de Raquel Lisboa é impossível. Digo isso com a propriedade de que poucos livros foram por mim lidos num tempo tão curto (o período de um dia), e levando em conta a dificuldade de se ler algo na tela do computador (sou adepto inveterado dos livros impressos), deve-se dar o devido crédito à autora. Raquel tem um texto deslumbrante, que preenche as páginas de forma inteligente e divertida. Sua história é completamente original, e os caminhos que percorre ao tecê-la nos fazem sentir o desejo pela leitura, pelos personagens e por suas passagens interessantes. Ela capta o melhor do cotidiano, sem ser nem um pouco prolixa ou enjoativa. 

Os personagens do livro, e não vou me deter muito neles para não estragar as surpresas do futuro leitor, são verossímeis e interessantes. Jamais imaginaria para um romance meu um vilão tão malvado quando Fernando (e olha que meus romances estão sempre cheios de vilões), e me pego imaginando no quanto Helena sofrera nas mãos dele, e jamais aceitara seu destino sem pensar em uma forma de dobrá-lo. E dobrou. Numa parte muito bem construída do texto, Raquel escreve: “Somente a pequena Heleninha sorria inocentemente, pendurada no pescoço do pai, tentando alcançar o armário.” É um arquétipo consistente de como se colocar lado a lado inocência infantil e as decisões da vida adulta – pai e filha, morte e vida, alegria e felicidade. As passagens prosseguem brilhantemente: “se fosse homem com certeza teria um bom futuro.” Aqui se percebe todo o orgulho (e preconceito) de pessoas que tem consciência de suas limitações enquanto homens e mulheres, mas ao mesmo tempo prostram-se à suas criações. A mãe de Helena se sobrepõem ao pai em racionalidade ao acreditar que filha possa ser outra coisa na vida que não simplesmente uma mulher. “Sr. Oscar, recostado em seu carro de luxo, acompanhava a mudança do irmão com um olhar de desapontamento. Na verdade, queria que ele fosse expulso dali, pelo novo proprietário.” Aqui, percebe-se a sutileza com a qual Raquel caracteriza o personagem Oscar, de uma forma que é impossível não perceber o quanto ele é inescrupuloso e hipócrita. É um recurso literário presente em muitos autores contemporâneos (e marca registrada de grandes clássicos da literatura brasileira), uma tragédia maquiada com ironia. Enxugado, o texto passa a mensagem da forma mais clara possível. Por fim, uma frase de efeito, que merece destaque: “Era um não parecido com sim”. A tradução mais simples da confusão mental na qual a personagem mergulha. 

Raquel é contundente com a construção de seus personagens. Helena é forte e decidida; Cadu é um homem extremamente amável, que já sofreu mas felizmente reencontrou o amor; Fernando é um canalha obsessivo, chefe de quadrilha e uma pessoa capaz de tudo para conseguir o que quer. O cenário no qual a história se constrói abre espaço para histórias menores, como a morte de Juliana. A história de Ana, melhor amiga de Helena, tem praticamente o mesmo espaço da própria história de Helena, e é tão interessante quanto. Tudo parece se completar ao redor do eixo central, e os conflitos são fechados com maestria pela autora. Meu coração se encheu de tristeza quando um dos personagens partiu sem ter a chance de se despedir de quem mais amou. Não há explicação para o que acontece com a gente nestes momentos.

Obviamente, algumas passagens poderiam ser melhor exploradas, como o embate final, que é muito rápido e decepciona um pouco. De resto, descrições de cenários e alguns diálogos podem ser melhores. Não há mais o que dizer. Raquel Lisboa escreveu um romance de estreia que merece ser lido por todos os amantes de literatura contemporânea. É interessante, retrata a ditadura com fatos verossímeis e, acima de tudo, mostra a luta de uma mulher que teve sua vida destruída por um bandido. Como escreveu Tagore, “as palavras vão ao coração quando saem do coração”. 

Helena e Raquel são, verdadeiramente, mulheres de honra. 



Classificação indicativa: Livre para todas as idades - violência moderadamente descrita.



Estrelas ganhas: 5/5 (cinco estrelas de cinco estrelas)



Troféus: Originalidade/ Enredo/Personagens/Desenvolvimento.





Tipo de livro analisado: e-book






Especificidades: Baixar livro gratuito




6 comentários:

  1. Adorei a crítica, as correções, tudo. É muito bom contar com o trabalho e o apoio de vocês. Parabéns pelo blog e pela iniciativa de colaborar com os novos autores. Mais uma vez, obrigada!

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    1. Raquel, disponha sempre.

      Observatório Clube de Autores

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  2. Leo Siva usou muitas das palavras que eu usaria para descrever o livro Mulher de Honra de Raquel Lisboa.Faz três dias que acabei de ler e ainda estou vivendo a história de Helena. Nota cinco estrelas(pode dar mais?.
    Parabéns.
    Sálvio Sérgio de Campos

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    1. Obrigado pelo comentário, Sálvio. Esperamos por sua visita.

      Att,

      Observatório

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  3. Perfeito!... Mulher de Honra é, sem dúvida, uma das grandes revelações da Literatura Brasileira. Parabéns, Raquel.

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    1. Obrigado pelo comentário, Max, nossos colaboradores ficam felizes em saber que o trabalho deles agrada,

      Att,

      Observatório

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