quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Opinião

Contra o que estamos lutando?

por Léo Silva

Fiquei extremamente assustado quando fui conferir os preços dos meus livros esta semana – todos, sem exceções, custam ao redor de R$30 reais, mesmo o menorzinho deles, que antes custava R$20. Comecei a pensar no preço que pagamos por autopublicar, e contra o que temos de lutar.
E concluí que a luta é grande.



Primeiro, vivemos em um país onde meio milhão de pessoas tirou nota zero no ENEM, onde o BBB bate recordes de audiência e, o pior de tudo, onde artistas são eleitos para representar nosso país na política sem ter a mínima noção de como isso deveria ser feito. A imagem de lugar idílico, onde “tudo o que se planta dá”, de paraíso tropical, de libertinagem, parece ainda falar mais alto. Nossa fama nos precede, nesse caso no pior dos sentidos. Lutamos, em primeiro lugar, para ser vistos, deixarmos a invisibilidade e conquistarmos leitores.

Segundo, é difícil escrever e mais difícil ainda é viver de escrita. O mercado nacional de livros só se movimenta para aqueles que já têm nome ou que conseguem, à custa de muita autopromoção e propaganda (nem sempre verdadeira), romper a barreira mercadológica da escrita contemporânea. Lutamos, em segundo lugar, contra a perversidade da venda de espaço. Contra a marginalização. Escrever deveria ser a parte mais difícil, mas não é - quando percebemos a dificuldade de publicar concluímos que é a mais fácil. Dizem que fazem um favor ao publicar nosso livro, quando deveria ser o contrário – não deveríamos pagar para escrever, mas ser pagos. É uma profissão. É como se dissessem a um pintor que ele deveria pagar para as pessoas exporem seus quadros em suas casas. Falando em escrever, obter um ISBN custa caro demais no Brasil. Li em algum lugar que no Canadá é possível aos escritores obtê-lo gratuitamente (!). Li também que quem quiser comprar um lote grande de ISBN (isso nos Estados Unidos) consegue ótimos preços. Aí eu fico pensando com meus botões: por que tudo é caro e difícil por aqui? Escrever, revisar, corrigir, comprar ISBN, registrar na Biblioteca Nacional, correr atrás da publicação, divulgar, vender. Parece uma linha reta, mas não é.

Terceiro, a autopublicação é uma ilusão. Recorremos a ela mesmo sabendo que, provavelmente, não surtirá efeitos positivos que superem os negativos. Na verdade as editoras que oferecem tal serviço não passam de gráficas que cobram caro para imprimir livros de qualidade mediana para ruim a altos custos. Em terceiro, lutamos por visibilidade e por equidade. Fui conferir o preço de um livro e descobri que ele raramente (na verdade ainda não vi nenhum dos meus) ficará abaixo dos R$20 reais, mesmo com uma redução drástica de páginas – o sistema segura um valor mínimo, que até compreendo ser necessário para custear a produção, mas precisava ser tão caro? Fui conferir no outro site de autopublicação e percebi que um livro que custa R$30 no Clube de Autores (Um universo a mais) sai por R$40 lá. É muito caro. É preço de best-seller internacional. Não vende. São livros que ninguém lê. O preço dos e-books até que está bom, pois raramente passam de R$10, e eu vendi alguns. Mas eles também vendem pouco, pois ainda parece haver uma espécie de fetichismo pelo livro impresso, e nem todos gostam de livros digitais. De qualquer forma, pelo menos as pessoas estão lendo.

Quarto, manter a motivação. Sempre escrevi sem me importar se um dia seria lido ou não, mas chega um momento em que o autor percebe que seus esforços não o estão levando a lugar algum. Eu quero se lido, por isso escrevo. Manter a motivação quando tudo parece ser mais importante é complicado. Escrever quando é preciso trabalhar, cuidar da família, pagar infinitas contas parece supérfluo. Escrever exige dedicação, concentração, inspiração e trabalho duro. Publicar é caro. Alguns novos autores são tão desmotivados que fica difícil falar sobre motivação. A história de outros autores parece não servir para eles, e o circuito nacional acaba abarrotado de obras internacionais – nomes conhecidos, sucesso de vendas, enfim, é mais fácil publicar quem automaticamente vende tudo o que escreve do que investir no novo. Não devemos trocar o certo pelo duvidoso. Em quarto, lutamos contra a estagnação, o cansaço e contra aquela voz que diz lá no fundo do nosso ouvido que não acontecerá conosco, que jamais chegaremos lá.

Quinto, lutar contra nós mesmos. Lutar contra a falta de condições, contra o medo e a crítica. Lutamos contra o outro, que diz que nosso livro é ruim, está cheio de falhas (estes nos tornam fortes quando sabem como dizer isso). Lutamos também contra quem diz que a história é perfeita (estes nos enganam, não nos preparam para o mundo). Uma palavra pode nos construir ou destruir. Precisamos de incentivo, na mesma medida em que precisamos de sinceridade. Lutamos contra a crença de que ainda não está bom, de que o próximo será melhor. Eu mesmo já fiz propaganda contra mim, dizendo que acho meus livros caros demais – por que realmente são caros. Queria que custassem no máximo R$20 e que todos que querem pudessem lê-los. Ano passado fui a um Café Literário a convite de uma amiga, e foi maravilhoso. Mas não pude levar exemplares para vender, pois a grana estava curta, e eu tenho medo de comprar livros e não conseguir vendê-los. Lutamos contra o medo também. Contra o comodismo, as circunstâncias e as limitações. 

Enfim, escrever é uma luta diária. Mas tem seus louros. Dias desses recebi uma crítica extremamente positiva de uma leitora que não conhecia até então. É ótimo receber elogios de estranhos, pois certamente são sinceros (por que um estranho perderia a chance de me detonar se achasse que deveria?). Suas palavras me deixaram nas nuvens, disse que eu a emocionei, e esse é um dos meus desejos – emocionar pessoas. Acredito, então, que parte do meu dever está cumprida.
Agora, de volta à luta.

Sempre à disposição,

Léo Silva, em especial para o Observatório Clube de Autores

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